Voltar para o blog

Retatrutida: o remédio que promete emagrecer mais que o Ozempic e ainda nem está aprovado em lugar nenhum

PIPietra Fogaça
·
Retatrutida: o remédio que promete emagrecer mais que o Ozempic e ainda nem está aprovado em lugar nenhum

De um tempo para cá, tenho recebido perguntas sobre uma sigla nova: retatrutida. Ao contrário da semaglutida e da tirzepatida, que já estão registradas e disponíveis no mercado brasileiro sob nomes comerciais conhecidos, a retatrutida ainda está em fase de estudo clínico e não tem aprovação em nenhum país do mundo até o momento. Isso não impediu que o produto passasse a ser vendido de forma irregular pela internet, a ponto de a Anvisa emitir, em julho deste ano, um alerta formal sobre o tema, incluindo relatos de apreensão de unidades na fronteira. É um caso interessante para entender como a expectativa em torno de novas medicações para emagrecimento tem andado mais rápido do que a própria ciência regulatória.

Do ponto de vista farmacológico, a retatrutida é descrita como um agonista hormonal triplo, o que significa que ela atua simultaneamente sobre três receptores: o do GLP-1, o do GIP e o do glucagon. Para efeito de comparação, a semaglutida age apenas sobre o receptor de GLP-1, enquanto a tirzepatida combina GLP-1 e GIP. A adição do receptor de glucagon é o que diferencia essa nova molécula, porque essa via está associada ao aumento do gasto energético hepático, somando-se aos efeitos já conhecidos de redução do apetite e da velocidade de esvaziamento gástrico. Na teoria, essa combinação tripla explicaria por que os resultados de perda de peso observados nos estudos têm sido consistentemente maiores do que os das medicações já aprovadas.

E os números realmente chamam atenção: nos estudos de fase avançada, participantes que receberam a dose mais alta perderam, em média, algo próximo de 29% do peso corporal ao longo de setenta semanas, um resultado superior ao observado com semaglutida no mesmo tipo de comparação. Só que um dado curioso, e pouco comentado fora dos artigos médicos, é que entre 12% e 18% dos participantes do estudo abandonaram o tratamento justamente por estarem perdendo peso além do que consideravam desejável ou confortável. É a primeira vez que se documenta, em um estudo desse porte, desistência motivada por eficácia excessiva, e isso levanta uma pergunta legítima sobre até que ponto uma supressão tão intensa do apetite é desejável do ponto de vista comportamental e psicológico, e não só numérico na balança.

Esse ponto me parece importante justamente porque a conversa sobre essas medicações tende a girar exclusivamente em torno do quanto elas emagrecem, como se mais fosse sempre sinônimo de melhor. Uma supressão de apetite muito além do habitual pode dificultar a ingestão adequada de proteína e micronutrientes, favorecer perda de massa magra junto com a de gordura, e, em pessoas com histórico de relação difícil com a comida, criar um terreno propício para comportamentos alimentares desorganizados. Nenhuma dessas questões aparece no número isolado da porcentagem de peso perdido, mas fazem toda diferença na prática clínica.

Voltando à questão regulatória, o alerta da Anvisa não é burocracia vazia. Como a retatrutida ainda não tem registro em lugar nenhum, qualquer unidade vendida no mercado paralelo está, por definição, fora de qualquer controle de qualidade, dosagem ou procedência. A própria fabricante já identificou contaminação bacteriana, presença de endotoxinas e outras impurezas em produtos falsificados de medicações para obesidade que circulam nesse mercado irregular, o que significa risco real de efeito adverso grave, sem falar que a compra desse tipo de produto sem registro configura infração à legislação brasileira.

Entendo perfeitamente a ansiedade de quem acompanha essas notícias e já imagina ter acesso a um resultado tão expressivo quanto antes descrito, principalmente depois de anos ouvindo falar do sucesso de outras medicações da mesma classe. Mas expectativa alta em torno de uma molécula ainda em fase de teste não é motivo para expor a saúde a um produto sem nenhuma garantia de composição, pureza ou segurança de dose, e muito menos para pular a etapa de avaliação médica e nutricional que qualquer tratamento hormonal desse tipo exige, hoje com moléculas já aprovadas e amanhã, quando for o caso, com a retatrutida também.

Se você tem acompanhado essas notícias e está considerando opções de tratamento para o excesso de peso, incluindo medicações dessa classe já disponíveis, vale conversarmos com calma sobre o que de fato faz sentido para o seu caso, dentro do que existe hoje de forma segura e comprovada, sem precisar correr atrás da próxima novidade do momento.

Pietra FogaçaPI