Retatrutida: o "novo Mounjaro" já pode ser usado? O que dizem os estudos e a Anvisa

Poucos assuntos mexeram tanto com o consultório e com as redes quanto a retatrutida. Chamada por muita gente de "o novo Mounjaro", ela aparece em stories, grupos de mensagem e anúncios de peptídeos prometendo emagrecimentos de quase um terço do peso corporal. A empolgação tem base real em resultados de pesquisa, mas também esconde uma confusão importante: o fato de um medicamento funcionar em estudos não significa que ele esteja disponível, seguro e regulamentado para uso fora deles.
Do ponto de vista farmacológico, a retatrutida é um agonista triplo, que atua ao mesmo tempo nos receptores de GLP-1, de GIP e de glucagon. Os dois primeiros já são conhecidos de quem acompanha a tirzepatida e a semaglutida: aumentam a saciedade, reduzem a fome e favorecem a secreção de insulina de forma dependente da glicose. O terceiro é a novidade. O glucagon, hormônio historicamente associado ao jejum, parece aumentar o gasto energético e a oxidação de gordura, incluindo no fígado, o que ajuda a entender o interesse da droga também na doença hepática gordurosa.
Os resultados da fase 3 divulgados em 2026 explicam o alvoroço. No estudo TRIUMPH-1, com mais de 2.300 adultos com obesidade ou sobrepeso e sem diabetes, a perda média de peso em 80 semanas foi de cerca de 19% com a dose de 4 mg, 26% com a de 9 mg e 28% com a de 12 mg, contra pouco mais de 2% no placebo. Em um grupo acompanhado por mais tempo, a dose mais alta chegou a aproximadamente 30%. São números que se aproximam do que se via apenas com cirurgia bariátrica, e é compreensível que gerem expectativa.
Só que a mesma pesquisa traz o outro lado da moeda. Efeitos gastrointestinais foram frequentes, com náusea em até cerca de 40% dos participantes das doses maiores, além de diarreia, vômitos e constipação. Também chamou atenção a disestesia, uma alteração da sensibilidade da pele que apareceu em uma proporção maior de quem usou a droga do que no placebo. A maioria desses eventos foi de intensidade leve a moderada, e as interrupções por efeitos adversos ficaram em taxas relativamente baixas, mas o perfil de segurança de longo prazo, a manutenção do peso depois da suspensão e o impacto na massa muscular ainda precisam de mais dados.
É aqui que entra o ponto mais sensível para quem está pensando em tentar por conta própria. Até onde se sabe, a retatrutida não foi aprovada por nenhuma agência reguladora, incluindo a Anvisa, e continua restrita a pesquisa. No início de 2026, a agência determinou a apreensão e a proibição de produtos que a continham, vendidos sem registro, muitas vezes anunciados em redes sociais. Isso significa que o que circula como retatrutida ou como "peptídeo para emagrecer" não tem garantia de pureza, de dose correta nem de armazenamento adequado, e quem usa assume riscos que nenhum ensaio clínico avaliou.
O termo "peptídeos" ajuda a criar essa nebulosa. Peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos, e muitos fazem parte de medicamentos aprovados e bem estudados, como a própria semaglutida. Mas o rótulo também é usado para designar substâncias experimentais, manipuladas ou importadas, de origem incerta, que se beneficiam da aura científica do nome. Dizer que algo é um peptídeo não diz nada sobre eficácia, segurança ou legalidade, e é essa distinção que o público quase nunca recebe.
Existe ainda a questão do resultado esperado. Mesmo os medicamentos já aprovados, como a tirzepatida, funcionam melhor dentro de um plano que inclui ingestão adequada de proteína, treino de força para preservar massa magra, atenção ao sono e acompanhamento dos efeitos colaterais, e a retirada do tratamento costuma levar a recuperação parcial do peso. Uma perda muito rápida, sem esse cuidado, pode vir acompanhada de perda de músculo, queda de energia e deficiências nutricionais, independentemente da substância usada.
Por isso, a postura mais prudente hoje é acompanhar a retatrutida com interesse, sem pressa e sem atalhos. Quando e se ela for aprovada, o ideal é que seja prescrita por um médico, com indicação clara e acompanhamento. Enquanto isso, se você já usa algum medicamento para emagrecer ou está em dúvida sobre as opções disponíveis, a nutrição tem papel central em proteger sua massa muscular, organizar a alimentação e preparar a manutenção do resultado. Busque uma nutricionista de confiança!