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Emagrecer sem perder músculo: o papel da proteína no tratamento com GLP-1

PIPietra Fogaça
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Emagrecer sem perder músculo: o papel da proteína no tratamento com GLP-1

Durante muito tempo, emagrecimento foi medido quase exclusivamente pelo número na balança ou pelo IMC. Mas o que existe por trás desse número importa mais do que se costumava dar valor, e essa conversa ganhou força nos últimos anos, puxada em boa parte pela chegada dos agonistas de GLP-1 ao consultório. Quando o emagrecimento acontece rápido demais, ou sem os cuidados certos, uma fração relevante desse peso perdido pode vir do músculo, e não da gordura. E é justamente essa fração que interessa a quem quer emagrecer de um jeito que se sustente no tempo, e não só no curto prazo.

O músculo é o maior reservatório de proteína do corpo e um dos tecidos mais metabolicamente ativos que temos. É ele que, em boa parte, determina a taxa metabólica basal, participa da regulação da glicose e da sensibilidade à insulina, e sustenta a funcionalidade no dia a dia, especialmente com o passar dos anos. Perder massa magra durante um processo de emagrecimento reduz o gasto energético em repouso, o que ajuda a explicar por que tantas pessoas reganham peso depois de dietas restritivas: o corpo que sobra passa a consumir menos calorias do que o corpo que existia antes, mesmo que a pessoa volte a comer como comia antes de emagrecer.

Estudos que acompanham dietas hipocalóricas tradicionais já mostravam, há um tempo, que uma parcela considerável do peso perdido, algo entre 20% e 30% em média, pode vir de massa magra, principalmente quando a restrição calórica é intensa e não vem acompanhada de estímulo muscular adequado. Com os agonistas de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, revisões mais recentes, de 2025 e 2026, apontam uma faixa parecida ou até um pouco maior, entre 25% e 40% do peso perdido, com bastante variação de um estudo para outro dependendo do tempo de tratamento, da velocidade da perda de peso e de quanto a pessoa se exercitava ou se alimentava de proteína ao longo do processo. Vale dizer que outras metanálises mostram resultados mais favoráveis, com preservação relativamente boa da massa magra quando o acompanhamento é adequado, o que reforça que o problema não costuma estar no medicamento em si, e sim no contexto em que ele é usado.

Parte da explicação está no próprio mecanismo desses remédios. Eles atuam reduzindo o apetite e desacelerando o esvaziamento gástrico, o que faz a pessoa comer menos, muitas vezes bem menos, sem precisar de grande esforço consciente. O problema é que essa redução costuma ser generalizada: cai o consumo de proteína junto com o de carboidrato e gordura, e como a saciedade chega mais cedo, é fácil terminar o dia longe da quantidade de proteína necessária para sinalizar ao corpo que aquele músculo continua sendo útil e deve ser mantido.

Diante disso, um consenso nutricional voltado especificamente para pacientes em tratamento com GLP-1, publicado em 2025, passou a recomendar entre 1,2 e 1,6 grama de proteína por quilo de peso ao dia, valor bem acima da recomendação padrão de 0,8 grama por quilo usada para a população geral. Na prática, isso costuma significar distribuir a proteína em três ou quatro refeições ao longo do dia, com uma quantidade relevante em cada uma, já que a síntese de proteína muscular responde melhor a estímulos repetidos ao longo do dia do que a uma dose única concentrada, por exemplo, só no jantar.

A proteína sozinha, no entanto, não segura o músculo se não houver um estímulo para que ele continue sendo usado. O treino de força é, de longe, a intervenção com maior impacto na prevenção da perda muscular durante o emagrecimento, porque é o exercício que sinaliza ao corpo que aquele tecido segue sendo necessário. Revisões recentes sobre composição corporal em tratamentos de emagrecimento, incluindo os que envolvem GLP-1, colocam o treino resistido como parte praticamente obrigatória do plano, ao lado da proteína, e não como um complemento opcional para quem tem tempo sobrando.

A proporção exata de músculo perdido varia bastante de pessoa para pessoa, e depende de fatores como idade, sexo, nível de massa muscular antes do início do tratamento, status hormonal e velocidade do emagrecimento. Mulheres na perimenopausa ou já na pós-menopausa, por exemplo, lidam com uma queda natural de massa magra ligada à redução de estrogênio, o que pode tornar esse cuidado ainda mais relevante nessa fase da vida. Isso quer dizer que não existe uma fórmula única que sirva para todo mundo, e ajustar proteína e treino às características de cada pessoa costuma fazer bem mais diferença do que seguir uma regra genérica tirada da internet.

Acompanhar esse processo de perto também ajuda a enxergar o que a balança sozinha não mostra. Avaliações de composição corporal, seja por bioimpedância ou outros métodos, e até testes simples como a força de preensão manual, dão uma ideia mais precisa de como o corpo está respondendo ao tratamento do que o peso isolado. Um resultado com queda importante de peso, mas com perda desproporcional de massa magra, não deveria ser tratado como sucesso, mesmo que o número na balança pareça animador à primeira vista.

Esse tipo de ajuste, quanto de proteína, que tipo de treino, com que frequência acompanhar a composição corporal, muda bastante de pessoa para pessoa, e é justamente esse tipo de decisão que fica mais seguro com acompanhamento individualizado. Se você está em processo de emagrecimento, com ou sem medicação, e quer entender como proteger sua massa muscular nesse caminho, vale a pena conversar com um profissional que possa olhar para o seu caso específico.

Pietra FogaçaPI