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Dormir pouco muda o que você come: o que a ciência mostra sobre sono e apetite

PIPietra Falcone
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Dormir pouco muda o que você come: o que a ciência mostra sobre sono e apetite

Quando falamos em emagrecimento ou saúde metabólica, a conversa quase sempre gira em torno do que está no prato e do quanto a pessoa se movimenta. O sono costuma ficar de fora, como se fosse um assunto à parte. Só que a literatura científica das últimas décadas, e com bastante força nos estudos mais recentes, vem mostrando que a duração e a regularidade do sono influenciam diretamente o apetite, a escolha dos alimentos e a forma como o corpo lida com a glicose. Em muitos casos, a pessoa que "não consegue ter disciplina com a alimentação" está, na verdade, lutando contra uma biologia desregulada por noites curtas.

O primeiro ponto é hormonal. Estudos experimentais em que voluntários tiveram o sono restrito por alguns dias observaram, de forma consistente, alterações em hormônios que regulam a fome e a saciedade. A grelina, que estimula o apetite, tende a subir, enquanto a leptina, que sinaliza saciedade ao cérebro, tende a cair. Soma-se a isso o aumento do cortisol no fim do dia, que favorece a busca por energia rápida, e uma resposta aumentada dos sistemas de recompensa do cérebro diante de alimentos muito palatáveis. Na prática, o corpo cansado pede mais comida, e pede principalmente aquela mais densa em açúcar e gordura. Vale dizer que o tamanho desses efeitos varia entre os estudos e entre as pessoas, então não se trata de uma regra que funcione igual para todo mundo.

O dado que mais chama atenção, porém, vem de um ensaio clínico randomizado da Universidade de Chicago, publicado no JAMA Internal Medicine. Os pesquisadores acompanharam 80 adultos com sobrepeso que dormiam habitualmente menos de 6,5 horas por noite. Metade recebeu orientações individualizadas para alongar o tempo na cama, a outra metade seguiu a rotina normal, e ninguém foi instruído a mudar a dieta ou o exercício. Ao longo de duas semanas, o grupo que passou a dormir cerca de uma hora e doze minutos a mais por noite reduziu a ingestão calórica em aproximadamente 270 kcal por dia em relação ao grupo controle, sem que o gasto energético tivesse mudado de modo significativo. É uma diferença que, mantida no tempo, teria impacto relevante no balanço energético, e ela surgiu apenas por dormir melhor.

É preciso, no entanto, olhar esse resultado com cuidado. O estudo durou duas semanas, incluiu apenas adultos jovens com sobrepeso que já eram "dorminhocos de menos", e a ingestão foi estimada por métodos indiretos. Não sabemos se o efeito se sustenta por meses nem se vale do mesmo jeito para quem já dorme bem ou para pessoas com outras condições, como apneia ou insônia. Ainda assim, ele é coerente com o que os estudos observacionais sugerem há tempos, a associação entre sono curto e maior risco de ganho de peso, e reforça que a relação provavelmente é mais do que coincidência.

Há ainda a questão da glicose, que ganhou novos dados recentemente. Um estudo publicado na revista SLEEP, conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Singapura, submeteu 48 adultos jovens saudáveis a diferentes padrões de sono durante a semana. Mesmo com recuperação de oito horas nos fins de semana, tanto quem dormiu seis horas fixas quanto quem alternou entre quatro e oito horas apresentou piora da tolerância à glicose. No primeiro grupo, o pâncreas compensou produzindo mais insulina, o que é um sinal de resistência à insulina. No segundo, o de sono irregular, a glicose subiu mais e a resposta de insulina não acompanhou, o que os autores interpretam como um possível comprometimento precoce das células produtoras de insulina. A amostra é pequena e o período foi curto, mas a mensagem é interessante: não parece bastar "compensar no sábado e no domingo", e a regularidade também parece contar.

Outro mecanismo, mais comportamental, costuma passar despercebido. Quem dorme pouco passa mais tempo acordado à noite, o que aumenta as oportunidades de comer, geralmente beliscando algo prático e muito calórico. Além disso, a fadiga reduz a disposição para cozinhar, para se exercitar e para sustentar o autocontrole nas decisões do dia. Quando o cansaço se acumula, o planejamento alimentar que parecia simples na segunda-feira vira um esforço enorme na quinta. Por isso, em consulta, eu raramente avalio a alimentação sem perguntar sobre o sono.

Isso quer dizer que dormir bem resolve o peso? Não, e seria um erro vender essa ideia como solução mágica. O sono é uma peça importante de um quebra-cabeça que inclui alimentação, atividade física, estresse, genética, contexto social e saúde mental. O que a evidência permite afirmar, com prudência, é que dormir pouco e de forma irregular torna todo o restante mais difícil, e que melhorar o sono pode facilitar escolhas alimentares mais equilibradas, sem exigir uma força de vontade heroica.

Do ponto de vista prático, o caminho costuma passar por pequenas mudanças e não por uma revolução. Horários mais regulares para deitar e acordar, menos telas e luz intensa na hora que antecede o sono, jantares que não sejam nem muito pesados nem tão tardios, e moderação com cafeína e álcool à noite são ajustes que ajudam muita gente. Quando o problema persiste, com ronco intenso, pausas respiratórias, insônia crônica ou sonolência excessiva durante o dia, vale procurar avaliação médica, porque essas condições merecem investigação própria.

Se você percebe que sua fome, seus desejos por doces ou sua dificuldade de manter a rotina alimentar andam piores nos períodos de sono ruim, saiba que isso tem explicação fisiológica e não é falta de caráter. Cada pessoa tem uma rotina, um corpo e uma história diferentes, e é justamente por isso que o acompanhamento individualizado faz diferença. Se quiser conversar sobre como organizar sua alimentação levando em conta o seu sono e o seu dia a dia, será um prazer te receber em consulta.

Pietra FalconePI