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Barriga inchada: por que acontece e o que realmente ajuda

PIPietra Falcone
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Barriga inchada: por que acontece e o que realmente ajuda

Barriga inchada é uma das queixas que mais ouço no consultório. A pessoa acorda com o abdômen liso, almoça e, umas horas depois, jura que ganhou dois números de calça. Um detalhe que quase ninguém conhece: inchaço e distensão não são a mesma coisa. Inchaço é a sensação de barriga cheia e apertada, que pode existir sem que nada mude por fora. Distensão é quando a circunferência abdominal aumenta de verdade. Às vezes vêm juntos, às vezes não, e nem sempre têm a mesma causa.

Costuma-se achar que o problema é excesso de gás, mas os estudos contam outra história. Quando se mede o volume de gás no intestino, quem se queixa de inchaço nem sempre tem mais do que quem não se queixa. Duas coisas parecem pesar mais. A primeira é a sensibilidade do intestino: algumas pessoas sentem como desconforto uma quantidade de gás que outras nem percebem. A segunda é uma falha de coordenação entre o diafragma e a musculatura da barriga. Depois de comer, o diafragma deveria subir e a parede abdominal relaxar. Em quem tem distensão funcional, o diafragma desce e a barriga é empurrada para a frente, sem que a pessoa perceba. Isso ajuda a entender por que o inchaço pode aparecer tão depressa, às vezes minutos depois da refeição.

Na alimentação, o grupo mais estudado são os FODMAPs, carboidratos fermentáveis que estão na cebola, no alho, no trigo, nas leguminosas, em algumas frutas, no leite com lactose e em adoçantes como o sorbitol e o xilitol. Eles são mal absorvidos no intestino delgado, puxam água e acabam fermentados pelas bactérias do cólon, o que produz gás em quem é mais sensível. Uma revisão sobre o tratamento dietético do inchaço funcional viu evidência promissora para a dieta low-FODMAP, mas quase tudo vem de estudos com síndrome do intestino irritável, e não de pessoas que só têm inchaço. Já para tirar o glúten com esse objetivo, a evidência é insuficiente, a não ser que haja doença celíaca ou sensibilidade confirmada.

E aqui entra um ponto que muita gente desconhece: a low-FODMAP não é uma dieta para a vida toda. Ela começa com uma restrição temporária, depois os grupos de alimentos voltam um a um para descobrir quais incomodam de fato, e o objetivo final é comer o mais variado possível. Quando é feita por conta própria e se arrasta por meses, pode reduzir fibras e prebióticos, empobrecer o cardápio e ainda criar medo de comer. Os autores das revisões insistem no acompanhamento com nutricionista justamente por isso.

Muitas vezes a explicação é mais banal do que parece. Comer depressa e engolir ar, mascar chiclete, usar canudo, tomar refrigerante ou água com gás, fazer refeições muito grandes. Prisão de ventre também pesa bastante, porque o que fica parado no cólon fermenta mais e os gases têm mais dificuldade de sair. E tem a armadilha das fibras: quem decide de repente comer muito farelo, aveia ou tomar suplemento de fibra costuma piorar antes de melhorar. Aumentar aos poucos é bem melhor tolerado.

Sobre os chás e as receitas que prometem desinchar: erva-doce, hortelã e gengibre fazem parte da cultura alimentar e podem dar uma sensação de alívio, e há estudos pequenos com óleo de hortelã-pimenta na síndrome do intestino irritável. Mas isso está longe de provar que um chá desincha ou emagrece. Parte do que chamamos de inchaço também é retenção de líquidos, ligada ao sal, ao ciclo menstrual e ao sono, e nesse caso o intestino nem é o protagonista. E vale ficar atenta: inchaço que não passa, junto com perda de peso sem explicação, sangue nas fezes, dor forte, anemia ou histórico familiar de doença intestinal, pede avaliação médica, porque a causa pode não ter nada a ver com a comida.

Para a maioria das pessoas, observar vale mais do que cortar. Anotar o que comeu, a que horas, como foi o dia, como estava o intestino e em que fase do ciclo estava ajuda a enxergar padrões que pareciam aleatórios. Só depois disso dá para decidir se compensa testar uma redução temporária de FODMAPs ou se o problema está em outro lugar, como prisão de ventre, pressa nas refeições ou estresse.

Se a sua barriga vive inchada e você já cortou tudo e não teve resultados, você com certeza precisa de um bom acompanhamento nutricional!

Pietra FalconePI